Entre Luzes — #Nora

A mesa à meia-luz já girava ao redor dela, como se a noite estivesse nascendo ali. Nora ria com o corpo inteiro, um riso fácil que parecia sempre prestes a escapar de novo.

Nada era demais. Nada faltava. Havia algo nela que aquecia o espaço — como se estar perto fosse, por si só, uma boa ideia.

Os homens vinham. Não por esforço. Por gravidade. E Nora recebia todos com a mesma leveza generosa — um toque no braço, um comentário atento, um sorriso que fazia cada um acreditar que havia algo único ali.

E havia. Só que nunca ficava. Ela não prendia ninguém. Mas também não deixava ninguém sem destino.

— Você precisa conhecer minha amiga — disse, girando o corpo com naturalidade, já conectando histórias que não eram dela.

Um para a amiga que precisava esquecer alguém. Outro para a que ainda acreditava em alguma coisa. Um terceiro só porque as covinhas que apareciam na bochecha, quando ele ficava envergonhado, a cativaram: par perfeito para sua melhor amiga.

Nora organizava a noite como quem arruma flores em um vaso — beleza suficiente para durar pouco.

E assim, sem que ninguém precisasse perceber, a mesa se movimentava, a noite se organizava. Risos distribuídos. Interesses alinhados. Pequenas promessas ocupando o lugar certo.

Nora permanecia no centro — livre.

Os olhos dela passeavam pelo ambiente com curiosidade leve, quase distraída. Não como quem busca, mas como quem descobre.

Foi assim que avistou ele. E tudo mais que dele vinha.

Ele não tentava ser visto, mas o olhar dela já havia resolvido onde ficar.

O corpo largo, firme, ocupava espaço com naturalidade. A camiseta escura caía solta, mas não escondia a estrutura segura dos ombros, nem a tensão calma dos braços.

O rosto bronzeado trazia uma seriedade confortável. A barba convidativa, precisa demais para ser descuido.

E havia um detalhe pequeno, quase inútil — o jeito como a boca repousava de um lado só, como se estivesse sempre prestes a ceder a um sorriso.

Nora se demorou meio segundo a mais ali.

E sorriu iluminada.

Foi quando o olhar dele encontrou onde ficar.

Era impossível não notar, era impossível desviar.

O sorriso dele então se fez largo, começando do canto onde repousava.

A aproximação foi natural demais para ser notada.

Um brinde como primeiro movimento, um beijo de cada lado do rosto.
Uma frase sobre a música que tocava. Sobre o local. Um comentário qualquer que virou riso.
Um toque que parecia consequência, não intenção.

Nora era inteira ali. Presente, quente. Ela não escondia o desejo —
mas não estava entregue a ele. Era como se conduzisse o momento pelo prazer de vê-lo acontecer.

Até que, aos beijos e se segurando sem ver ao certo onde se apoiavam, o pé dela fecha a porta do banheiro vazio e tudo mais deixa existir.

Lá dentro, a luz era direta. Mas Nora não mudava.
Ainda havia riso dançando na boca. Ainda havia leveza no toque.
Mas havia uma chama que não pedia nada em troca.

Um desejo, uma volúpia; havia intensidade, havia intenção.

Ela vivia o instante, sem acelerar, sem prolongar.
Dando-se.

No rosto dele estava claro – aquilo nem parecia real.

Até ser impossível negar:
o dele jorrando nela, e o dela encharcando-o.

Depois, diante do espelho, ela ajeitou o cabelo com calma, preparando-se para voltar à mesa.

Ele ainda se atrapalhando com o cinto e os botões da camisa. Mas ainda ali, sorridente, próximo, confortável na ideia do que aquilo tinha sido.

Nora abriu a bolsa. O gesto era simples demais para carregar significado.
Mas carregava.

Colocou o dinheiro na mão dele com suavidade — quase um cuidado.

E só então olhou. De verdade.

— Você continua muito bom no que faz — disse, leve, como quem elogia algo óbvio.

Um sorriso breve. Sem ironia. Sem afeto. Só precisão.

E, naquele instante, algo se deslocou.

Não nela.

Nora já estava de volta antes mesmo de sair dali.

Ele ficou.

Sozinho naquele banheiro, com o corpo ainda quente e uma compreensão que vinha clara demais para impedir.

Quando Nora voltou para a mesa, as amigas riam.
Os homens ainda estavam ali. A noite seguia aberta, generosa.

Ela se sentou, cruzou as pernas, pegou a taça —
com o mesmo brilho e a mesma leveza.

Intacta.

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